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Fornecimento de gelo seco é apenas um dos desafios na distribuição de vacinas

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Frasco de potencial vacina contra Covid-19 Foto: Dado Ruvic/Reuters (3.nov.2020)

Vacinas devem ser mantidas resfriadas, mas nenhuma precisa do frio mais do que a candidata da Pfizer contra a Covid-19, que necessita permanecer ultracongelada. E isso será um problema para os países em desenvolvimento e para as áreas rurais dos países desenvolvidos.

A cadeia de distribuição refrigerada é apenas um dos desafios na distribuição de vacinas por todo o mundo.

Existem muitos outros: decisões sobre quais serão as populações prioritárias e sobre bancos de dados, para controlar quem foi vacinado com qual vacina, onde e quando. Além disso, diferentes imunizantes podem ter maior ou menor eficácia em diferentes grupos populacionais; e os governos vão precisar de campanhas de relações públicas para persuadir as pessoas de que as vacinas são seguras.

Mas a logística de transporte e armazenamento das vacinas – desde o portão da fábrica até o braço do paciente – é uma parte crítica. E, como a maioria das vacinas provavelmente requer duas doses, toda a cadeia deverá ser repetida em algumas semanas.

Desafios únicos

A vacina Pfizer-BioNTech precisa ser mantida em torno de -70ºC enquanto é transportada. Essa temperatura é 50ºC abaixo das exigências de qualquer outra vacina usada atualmente.

A Moderna afirma que sua vacina pode ser mantida em freezers, normalmente disponíveis em farmácias, ou até em geladeiras por 30 dias. Mas é provável que haja menos doses da vacina da Moderna do que a da Pfizer disponíveis no próximo ano.

Os ensaios da fase 3 mostraram que as duas têm cerca de 95% de eficácia, mas os resultados ainda não foram revisados por órgãos reguladores.

Na quarta-feira (18), o CEO Ugur Sahin, da BioNTech, empresa de biotecnologia alemã e parceira da Pfizer, reconheceu a questão do controle de temperatura.

Moderna afirma que sua vacina contra o coronavírus tem 94,5% de eficiência

Moderna afirma que sua vacina contra o coronavírus tem 94,5% de eficiência – Foto: Dado Ruvic/Reuters

“Estamos trabalhando em uma formulação que pode nos permitir enviar a vacina mesmo em temperatura ambiente”, disse Sahin à CNN. “Acreditamos que no segundo semestre de 2021 teremos chegado a uma formulação comparável com qualquer outro tipo de vacina.”

Mas nesse meio-tempo, o secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Alex Azar, acredita que a candidata da Moderna é “mais flexível” para ambientes como uma drogaria comum. A vacina da Pfizer é mais adequada para “grandes vacinações institucionais, como em um grande hospital, ou vários lares de idosos ao mesmo tempo”, disse ele na última segunda-feira.

A Pfizer planeja o envio de até 1,3 bilhão de doses no próximo ano, o que demanda muito gelo seco (dióxido de carbono na forma sólida, mantido em cerca de -78ºC) e muitas caixas isotérmicas. As caixas comportam até 975 frascos (4.875 doses) e podem ser recarregadas com gelo seco por até 15 dias de armazenamento.

A Pfizer atualmente testa a cadeia de fornecimento em quatro estados dos Estados Unidos. Seu CEO, Albert Bourla, disse, na quarta-feira, não ter “nenhuma preocupação” com os requisitos de temperatura.

Mas o envio dessa vacina pode representar grandes desafios. O diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde, Jarbas Barbosa, disse à CNN que “as áreas rurais e urbanas de qualquer país do mundo não estão prontas para administrar essa vacina hoje”. “Então quem, no mundo, está preparado? Ninguém.”

Um dos problemas é a disponibilidade de gelo seco.

A Associação de Gás Comprimido (Compressed Gas Association, no nome em inglês) afirma que a capacidade de produção de dióxido de carbono nos Estados Unidos e no Canadá é de cerca de 30.000 toneladas por dia e está confiante de que seus membros podem atender à demanda por gelo seco. A entidade afirma que as autoridades da cadeia de suprimentos da vacina estimam que menos de 5% da produção de gelo seco serão necessários para o armazenamento ultrarrefecido de vacinas contra a Covid-19 nos Estados Unidos e Canadá.

Outros na indústria esperam gargalos. Vários produtores de gelo seco nos EUA disseram à CNN que já receberam ofertas para a compra de toda a sua produção. Buddy Collen, da Reliant and Pacific Dry Ice, disse à publicação online GasWorld: “Estamos em modo de luta, tentando administrar nossas estações de produção.”

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O presidente da Advanced Cryogenics, Sam Rushing, que tem sede na Flórida, disse à CNN que já existe escassez em algumas regiões do país.

O principal problema, diz Rushing, é o menor número de veículos nas estradas durante a pandemia, o que significa menor produção de etanol, do qual o dióxido de carbono é um subproduto. A produção europeia de etanol também caiu drasticamente neste ano.

Autoridades americanas estão confiantes de que haverá gelo seco suficiente disponível. O diretor de abastecimento produção e distribuição da Operação Warp Speed, Paul Ostrowski, disse à CNN, na semana passada, que a transportadora UPS havia se comprometido a “fornecer remessas de gelo seco em toda a América, sob demanda”.

Mas Rushing avisa que gelo seco não é fácil de ser manuseado e pode ser perigoso em casa de armazenamento inadequado, especialmente em espaços confinados. A Administração Federal de Aviação considera a substância como carga perigosa.

O CEO da Lufthansa Cargo, Peter Garber, disse à CNN que a necessidade de gelo seco “evidentemente também reduz a capacidade de transporte, porque se você tem carregar mais gelo, não pode carregar tantas vacinas. E é claro que os procedimentos têm que ser muito especiais, de forma a garantir que o grau de frieza seja sempre mantido”.

A transportadora americana DHL está adaptando seus planos de distribuição de acordo com as especificações de cada vacina. O CEO de envios globais da empresa, David Goldberg, diz que “há uma restrição na quantidade de gelo seco a se utilizar em uma aeronave – normalmente entre 500 a 1000 quilos, dependendo de vários fatores”.

Avião que trouxe ao Brasil doses da vacina Coronavac (19.nov.2020)

Avião que trouxe ao Brasil doses da vacina Coronavac (19.nov.2020) – Foto: Reprodução/CNN

Assim que entregues, os frascos da Pfizer podem ser armazenados entre 2 a 8ºC por até cinco dias antes de se deteriorarem.

A Pfizer afirma ter desenvolvido um “sistema just-in-time, que enviará os frascos congelados direto ao ponto de vacinação”. A empresa também irá monitorar a temperatura de cada caixa enviada.

A especialista em cadeias de suprimentos da Universidade Estadual da Carolina do Norte, Julie Swann, diz que grandes sistemas hospitalares, que costumam ter freezers ultrafrios, podem funcionar como centros de distribuição. Mas nem todos os estados americanos têm essa estrutura. Na semana passada, o Havaí disse que nenhum de seus hospitais estão equipados com tais freezers.

Organizar envios de uma vacina congelada para áreas rurais ou pequenos grupos de trabalhadores essenciais – sem comprometer sua temperatura – será outro desafio, disse Swann.

Quando uma vacina precisa ser usada dentro de alguns dias, os provedores precisam se certificar de que estão prontos. “Você não pode simplesmente esperar para ver quem aparece (para buscar as vacinas)”, disse. “E ainda não temos dados bons para definir onde e quem são as populações prioritárias.”

Quanto mais elos na cadeia de fornecimento, maior o risco de a temperatura da vacina ser comprometida. No mês passado, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês) informaram que “deveriam limitar o transporte de vacinas congeladas ou ultracongeladas”.

O especialista em cadeias de fornecimento e membro sênior do Centro para Desenvolvimento Global, Prashant Yadav, disse: “É uma questão de quando poderemos começar a pensar em vários formatos de embalagem.”

Além dos EUA

Se levar uma vacina congelada a dezenas de milhões de pessoas é um desafio para os Estados Unidos, é um problema muito maior para países mais pobres.

As conexões de transporte são mais lentas e as instalações médicas são menos ocupadas no mundo em desenvolvimento. A produção de CO2 é escassa, além de o custo e os riscos envolvidos no envio de grandes quantidades de gelo seco também serem um obstáculo, diz Yadav.

O CEO David Gitlin, da Carrier, especialista em refrigeração, disse à CNN na semana passada: “Quando você olha para lugares como a África e a Índia, eles simplesmente não têm infraestrutura de cadeias de distribuição refrigeradas. Os EUA gastam 300 vezes mais per capita com cadeias refrigeradas do que a Índia.”

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O Peru é um dos muitos países que encomendaram a vacina da Pfizer. Na capital, Lima, onde grandes volumes podem ser administrados rapidamente, a estrutura deve ser efetiva, diz Germán Malaga, membro de uma equipe que trabalha nas opções de vacinas no Peru.

Embora provavelmente haja cerca de 30 freezers ultracongelados em Lima, “para os outros 20 milhões de peruanos, incluindo os Andes e a floresta tropical, não há nenhum”.

“Para o resto do país, poderíamos usar vacinas como a chinesa, que exige de 2 a 8ºC, o que é mais administrável”, disse Málaga.

“É uma questão de custo-benefício, que não se refere apenas à vacina, e sim a todo o processo de vacinação”, disse Yadav. Mas se a candidata da Pfizer se mostrar mais efetiva, a demanda por freezers ultracongelados seria esmagadora.

Barbosa diz que a Organização Pan-Americana da Saúde está pedindo aos Estados membros que não gastem grandes quantias se preparando para uma vacina, mas que se juntem a um mecanismo multilateral chamado Covax – trata-se, essencialmente, de uma câmara de compensação pra compra de vacinas, administrada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além da cadeia refrigerada, existem outros obstáculos logísticos.

Será necessária uma grande ponte aérea para que as vacinas cheguem aos locais onde devem ir. A Pfizer, que tem linhas de produção na Europa e nos EUA, diz esperar uma média de 20 voos de carga diários em todo o mundo.

A DHL espera de 15 milhões de caixas de resfriamento precisem ser entregues em 15.000 voos nos próximos dois anos. David Golberg disse à CNN que a empresa estabeleceu uma rede de cadeia resfriada de alta qualidade e está adicionando voos entre China, Europa e EUA.

Muitos países podem utilizar programas de vacinação existentes como modelo. O programa nacional de vacinação peruano alcança cerca de 75% da população, disse Málaga.

O programa de vacinação contra a poliomielite da Índia é quase onipresente – cobriu mais de 90% das crianças do país neste ano, de acordo com Gagandeep Kang, dos Laboratórios Wellcome de Pesquisas, no Christian Medical College, em Vellore.

“Para os programas de pólio, usamos barcos e mulas e profissionais da saúde empenhados”, disse Kang. Mas tais programas são projetados para alcançar menos de um décimo da população, e as vacinas da Covid-19 precisarão se concentrar em grupos diferentes, disse.

Aplicação de vacina

Aplicação de vacina – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A Índia precisará de “uma série de ondas, cada uma abordando um grupo diferente, conforma a vacina se torne disponível”, disse ela à CNN.

“Precisaremos ver as características do desempenho de outras vacinas e seus requisitos de entrega antes de tomar a decisão de qual escolher”, disse Kang, que também é membro do Comitê Consultivo Global sobre Segurança de Vacinas da Organização Mundial da Saúde.

Numa situação dinâmica assim, a manutenção de registros é crítica. A cientista Anna Blakney, que trabalha na vacina desenvolvida pelo Imperial College, de Londres, disse não haver infraestrutura nos EUA para monitorar quem está recebendo qual vacina, e em que momento, o que ela considera ser “um problema realmente crítico”.

Yadava afirma que mesmo quando a vacina chegar ao seu destino, será necessária alguma flexibilidade para permitir que as pessoas recebam a segunda dose em um local diferente, caso queiram. E isso exige bancos de dados confiáveis.

Barbosa disse que além da cadeia de suprimentos, os governos “devem ter uma boa estratégia de comunicação para superar o ceticismo do público e as teorias conspiratórias sobre vacinas”.

Blakney concorda. “Esse processo (de desenvolvimento de vacinas) tem sido tão rápido que não é surpreendente que as pessoas tenham ceticismo quando leem sobre segurança e possíveis efeitos colaterais, disse.

Ela é parte de um esforço internacional criado por cientistas para tranquilizar as pessoas, através das redes sociais, sobre a segurança e a eficácia das vacinas contra a Covid-19.

Fonte: cnnbrasil.com.br

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Qual a possibilidade de ter Covid-19 duas vezes? Infectologista explica

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O infectologista Max Igor Banks (28.nov.2020) Foto: Reprodução/CNN

O Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo, investiga possíveis casos de reinfecção por coronavírus, separando um ambulatório para acompanhar os pacientes. O infectologista e coordenador de doenças infecciosas do HC, Max Igor Banks, falou sobre os riscos à CNN neste sábado (28)

“Hoje esses casos são mais frequentes, tanto aqui quanto em outros lugares no mundo. A gente tem visto que a maior parte dos casos identificados no Brasil, 80%, 90%, são casos mais graves da segunda vez, o que vai um pouco contra o que se vê no mundo, onde os segundos casos são mais leves. Esse evento de reinfecção talvez seja muito mais frequente do que estamos medindo no momento”, explica.

“Apesar disso, você não vê pessoas ficarem muito doentes, apesar de alguns reinfectados terem sido internados e precisado de oxigênio. As pessoas que acham que, por terem pego não transmitem mais, podem estar enganadas. E algumas delas podem ficar doentes de novo, até de forma mais intensa”, alerta o infectologista.

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“A gente tem uma hipótese, uma ideia, que talvez a segunda infecção tenha a ver com quantidade de vírus. Na primeira vez você tem um contato com menos vírus, não faz uma proteção boa, e na segunda vez tem contato com uma quantidade grande de vírus. Uma característica desses casos é que prioritariamente são profissionais de saúde, que estão mais expostos e podem se infectar novamente”.

Fonte; cnnbrasil.com.br

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