MINISTÉRIO PÚBLICO
Termo define metas para reduzir biomassa da supressão nativa
O Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) firmou, nesta segunda-feira (08), Termo de Compromisso Ambiental (TCA) com o Governo do Estado, com o objetivo de estabelecer uma política estruturante para garantir a sustentabilidade no uso de matéria-prima florestal pelas grandes indústrias consumidoras. O instrumento foi celebrado no âmbito da 15ª Promotoria de Justiça Cível de Defesa do Meio Ambiente Natural da Capital e possui eficácia de título executivo extrajudicial, o que assegura maior efetividade no cumprimento das obrigações pactuadas. O acordo parte do diagnóstico de crescimento acelerado da demanda por matéria-prima florestal em Mato Grosso, especialmente impulsionado pela expansão das cadeias agroindustriais e industriais. Dados apresentados no próprio documento indicam que, entre 2021 e 2024, o consumo passou de 3,4 milhões para 7,4 milhões de metros cúbicos, um aumento de 114%, enquanto, no mesmo período, houve redução da área plantada de eucalipto no estado. Nesse contexto, o TCA estabelece diretrizes para uma transição gradual, segura e economicamente viável, voltada ao uso de fontes renováveis, rastreáveis e sustentáveis de matéria-prima florestal. Entre as principais medidas está a obrigação de o Estado editar, no prazo de 30 dias, decreto regulamentador que institua o Plano de Desenvolvimento Florestal de Mato Grosso, com metas de expansão de florestas plantadas para pelo menos 700 mil hectares até 2040 e ampliação das áreas de manejo florestal sustentável para 6,5 milhões de hectares no mesmo período. O termo também fixa um cronograma de redução gradual do uso de matéria-prima proveniente da supressão de vegetação nativa pelas empresas classificadas como grandes consumidoras. A partir de 2030, o limite máximo será de 50% do consumo anual, com redução progressiva para 40% em 2031, 30% em 2032 e 10% em 2033, até alcançar a eliminação total desse tipo de insumo em 2034. Para os anos de 2027 a 2029, embora não haja limite percentual definido, será exigida comprovação de implantação florestal proporcional ao consumo, como forma de preparar a base produtiva para a transição. Além disso, o compromisso estabelece que novos empreendimentos e projetos de ampliação não poderão utilizar matéria-prima oriunda de supressão de vegetação nativa, devendo comprovar que o abastecimento será feito exclusivamente por meio de florestas plantadas, manejo florestal sustentável ou outras fontes previstas em lei. Essa exigência se estende ao processo de licenciamento ambiental, uma vez que os Planos de Suprimento Sustentável passarão a ser condicionantes obrigatórios para a concessão e renovação das licenças. Os Planos de Suprimento Sustentável deverão conter um conjunto detalhado de informações, incluindo histórico de consumo dos últimos três anos, estimativa de demanda futura entre 2027 e 2037, identificação das fontes de suprimento, planejamento de plantio, metas anuais de redução do uso de vegetação nativa, mecanismos de rastreabilidade e relatórios anuais de acompanhamento. O documento também prevê que esses planos sejam monitorados continuamente pelo órgão ambiental, com possibilidade de suspensão de licenças ou redução da produção em caso de descumprimento. Outro ponto relevante é a exigência de mecanismos de rastreabilidade da cadeia produtiva, tanto em nível virtual quanto físico, permitindo o acompanhamento da origem da matéria-prima desde o local de produção até o consumo final. O Estado deverá regulamentar esses procedimentos no prazo de 120 dias e desenvolver um módulo específico no Sistema Integrado de Gestão Ambiental, que possibilitará o envio eletrônico dos planos, o monitoramento das metas e a integração com bases oficiais de dados ambientais. O TCA também prevê a realização de auditorias independentes anuais pelas empresas, com o objetivo de verificar o cumprimento das metas de transição, a origem da matéria-prima e a conformidade com os planos apresentados. Esses relatórios deverão ser submetidos à Sema juntamente com o Relatório Anual de Suprimento, que detalhará consumo, estoques, plantios, créditos de reposição florestal e demais informações técnicas. Para garantir transparência e controle social, o Estado se comprometeu a disponibilizar, em portal público, os pareceres técnicos, licenças ambientais, relatórios de auditoria e relatórios anuais relacionados aos Planos de Suprimento Sustentável, resguardadas as informações protegidas por sigilo legal. No campo da fiscalização, o descumprimento das obrigações poderá resultar em sanções administrativas proporcionais, como aplicação de multas, redução da capacidade produtiva e até suspensão ou cassação da licença ambiental. O próprio termo prevê multa diária em caso de descumprimento das obrigações assumidas pelo poder público, com valores destinados ao Fundo de Desenvolvimento Florestal, voltado ao financiamento de ações de reflorestamento, manejo sustentável e recuperação de áreas degradadas. A assinatura do termo também resultou no encaminhamento para arquivamento do procedimento administrativo que tratava da matéria, uma vez que a solução consensual foi adotada como instrumento para garantir maior celeridade, efetividade e segurança jurídica na implementação das medidas. Participaram da assinatura do termo o procurador-Geral de Justiça Rodrigo Fonseca Costa, a procuradora de Justiça Ana Luiza Peterlini e o governador Otaviano Pivetta. Também participaram da agenda os secretários de Estado Mauro Carvalho (Casa Civil), Mayran Beckman (Desenvolvimento Econômico) e o procurador-geral do Estado, Francisco LopesFotos: Mayke Toscano/Secom-MT
Fonte: Ministério Público MT – MT
MINISTÉRIO PÚBLICO
Webinar do MPMT reúne lideranças indígenas e debate saúde pública
Com a participação de cerca de 150 indígenas diretamente da aldeia Wamariwê, no município de Canarana (a 823 km de Cuiabá), o webinar “SUS Negado, Povo Apagado: A Biopolítica da Morte de Indígenas” abriu, nesta terça-feira (9), um espaço de escuta, denúncia e reflexão sobre os desafios enfrentados por esses povos no acesso à saúde pública. O evento virtual reuniu aproximadamente 300 participantes de diferentes regiões do país, entre integrantes do Ministério Público, especialistas, lideranças e representantes indígenas e representantes da sociedade civil, em um debate interdisciplinar sobre dignidade humana, justiça social e a defesa dos direitos indígenas. Na abertura do evento, o procurador de Justiça José Antônio Borges Pereira, titular da Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico, explicou que a iniciativa surgiu após sua participação no 12º Encontro Indígena Intercultural, realizado em Cuiabá, no mês de abril. Ele relatou ter sido impactado pelos cantares fúnebres apresentados durante o encontro e reforçou o compromisso institucional do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) com os povos originários. O procurador de Justiça destacou que o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) está presente em 74 comarcas e nos 142 municípios do estado, e reforçou que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve garantir atendimento universal a todos. Segundo ele, nas questões relacionadas aos povos indígenas, a atuação ocorre de forma articulada entre o Ministério Público estadual e o Ministério Público Federal (MPF). “Temos um enunciado, uma ordem superior do nosso Conselho, que diz ser atribuição do Ministério Público estadual atuar nas demandas individuais e coletivas que envolvam a saúde de pessoas indígenas, quando não estiverem relacionadas à disputa sobre direitos essencialmente indígenas previstos no artigo 231 da Constituição Federal, quais sejam: a organização social, os costumes, as línguas, as crenças, as tradições e as terras que tradicionalmente ocupam”, explicou. A iniciativa do MPMT foi enaltecida pela palestrante do dia, a advogada e subprocuradora-geral da República aposentada Deborah Duprat, que falou sobre “A saúde dos povos indígenas: especificidades e desafios”. “Quero saudar como muito entusiasmo essa iniciativa do Ministério Público de Mato Grosso. Apesar de a Constituição Federal ter atribuído um papel importantíssimo ao Ministério Público Federal isso não exclui, de modo algum, as iniciativas de Ministério Público estaduais e de Defensorias Públicas na defesa e promoção dos direitos indígenas. Aliás, em matéria de Direitos Humanos, devemos sempre nos somar e nunca buscar espaços de exclusividade”, iniciou. Deborah Duprat iniciou abordando os pressupostos do processo de colonização, que são da inferioridade dos povos indígenas, do ideal de assimilação cultural, da negação do pluralismo étnico e cultural, e da invisibilização e do apagamento indígena. Na sequência, afirmou que a Constituição Federal de 1988 representa uma ruptura com essa lógica colonial ao reconhecer o Brasil como um Estado pluriétnico e ao garantir os direitos originários dos povos indígenas sobre seus territórios. Segundo a palestrante a Carta Magna reconheceu que a principal questão relacionada aos povos indígenas era territorial e também assegurou o direito ao uso das línguas nativas.. No entanto, nada foi dito com relação à saúde desses povos. Ela observou que embora a normativa previsse um sistema de saúde único e universal, isso não seria o bastante para atendimento aos indígenas. “Os povos indígenas começaram a desconfiar de um sistema de saúde universal. Já tinham consciência de que universal significava, em certa medida, assimilação e integração. Universal não dava conta das particularidades dos seus modos de vida, saberes ancestrais e modos específicos de cuidar da saúde”, disse. A situação começou a mudar com a Lei Arouca (Lei nº 9.836/1999), que instituiu o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A legislação passou a garantir atendimento universal e diferenciado aos povos indígenas, respeitando as especificidades culturais e a organização territorial das comunidades. Segundo a palestrante, a norma possibilitou a criação de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), estruturados em polos-base, além dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi), responsáveis pelo controle social da política pública. Apesar dos avanços, o obstáculo passou a ser a dificuldade de fixar médicos nas aldeias, sobretudo nas regiões de difícil acesso. Esse cenário mudou com a criação do Programa Mais Médicos. Para Deborah Duprat, a situação se agravou após a aprovação da Emenda Constitucional nº 95 de 2016, que instituiu o teto de gastos públicos e foi classificada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das políticas de austeridade mais severas do mundo. Segundo ela, a medida afetou diretamente o Programa de Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde Indígena. “As quedas no financiamento foram terríveis e a chegada do governo Bolsonaro foi ainda pior”, apontou. De acordo com a subprocuradora-geral da República aposentada, o desfinanciamento das políticas públicas, aliado à pandemia da Covid-19, contribuiu significativamente para o aumento das taxas de mortalidade entre os povos indígenas. Ela citou estudos que registraram crescimento nas internações de indígenas por síndrome respiratória aguda grave durante o período pandêmico, além de apontarem que os indígenas tinham 4,5 vezes mais chances de contágio pela doença e taxa de mortalidade 150% superior à da população em geral. Deborah Duprat também abordou os impactos da mineração ilegal (garimpo) e do desmatamento em terras indígenas. “Temos problemas severos de escolhas políticas que causaram impactos significativos no desenho da saúde indígena. Um desenho muito bonito, resultado da luta indígena, mas que teve um impacto absolutamente desproporcional em razão da emenda do teto de gastos, do desfinanciamento da política e da falta de medidas severas para garantir a integridade territorial. Nós não temos um sistema que sobreviva a terras invadidas”, finalizou. O líder indígena, professor e ativista ambiental Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, agradeceu ao MPMT pela iniciativa do evento. Como debatedor, argumentou que a política de saúde do país não atende, na prática, os indígenas. Disse que é um sonho receber atendimento adequado e de qualidade, mas que a realidade é outra, de esquecimento. “Temos que falar a verdade do que está acontecendo. Os dados são antigos e estão desatualizados. Quem conhece muito bem a saúde e sofre somos nós, povos indígenas, que vivemos nas aldeias, longe, onde não tem acesso e onde os médicos não chegam”, afirmou. Ele classificou como irresponsável a postura do Governo Federal diante da crise enfrentada pelos povos indígenas. “Nós estamos sofrendo com a falta de assistência e de compromisso, especialmente nas terras yanomamis, que embora estejam demarcadas e homologadas, estão desprotegidas e sendo invadidas por garimpeiros ilegais. É uma situação vulnerável, a nossa saúde não está sendo cuidada”, alertou. De acordo com Dário Kopenawa, a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro representou um período trágico para o povo yanomami. “Morreram pelo menos 570 crianças yanomamis por irresponsabilidade do governo Bolsonaro. Fico muito triste porque nossas crianças querem viver, conhecer a floresta. Por isso é importante que o Ministério Público investigue essa irresponsabilidade, má organização da saúde pública”. Outro ponto destacado pelo debatedor foi o avanço do garimpo ilegal em terras indígenas, apontado por ele como o principal vetor de mortes entre a população indígena, devido à disseminação de doenças e à contaminação dos rios. “Cadê os nossos governantes para proteger as nossas terras demarcadas?”, questionou. O líder indígena também chamou atenção para a presença crescente do crime organizado e de facções criminosas nas aldeias, cenário que classificou como preocupante. “Nossa saúde não está melhorando, mas, como lutadores, como povos da floresta, vamos continuar cobrando do governo federal os nossos direitos”, asseverou. Segundo ele, apesar de o discurso predominante apontar a fome como principal causa das mortes entre os yanomamis, a origem da crise está diretamente relacionada aos impactos do garimpo ilegal e às consequências provocadas pela atividade nos territórios indígenas. Atuando como mediador do debate, o promotor de Justiça Fabrício Miranda Mereb, titular da 1ª Promotoria de Justiça de Campinápolis, manifestou solidariedade à causa indígena e afirmou compartilhar da mesma realidade enfrentada na região onde atua, marcada por elevados índices de mortalidade infantil entre os povos. “Quando uma criança morre, nós morremos juntos, internamente, e isso é muito dolorido. Saiba que estamos juntos nessa luta para construir uma rede de saúde e sanitária abrangente, que tenha uma escuta qualificada do povo indígena”, considerou. O promotor de Justiça acrescentou que a questão sanitária não pode ser compreendida apenas sob a perspectiva do acesso a medicamentos e atendimento médico, mas também envolve saneamento básico, qualidade dos rios e segurança alimentar. “É necessário que tenhamos um olhar holístico para toda a situação e, junto com o povo indígena, construamos um futuro melhor para essa população”, defendeu. Participaram do debate indígenas das etnias Xingu, Xavante, Karajá, Nawá, Yanomami, Paresi, Nambiquara, Juruna, Arara, Waurá, Apyãwa e Wamariwê, além de quilombolas e representantes do Ministério dos Povos Indígenas, dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), da Polícia Judiciária Civil, da Secretaria de Cultura de Diamantino e alunos da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) de Diamantino. Programação – O webinar “SUS Negado, Povo Apagado: A Biopolítica da Morte de Indígenas” é promovido pela Procuradoria de Justiça Especializada na Defesa da Cidadania, Consumidor, Direitos Humanos, Minorias, Segurança Alimentar e Estado Laico, em parceria com o Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf), Escola Institucional do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT). A programação segue até o dia 11 de junho. Na quarta-feira (10), a socióloga Haya Del Bel ministrará a palestra “Saúde Indígena e Território: o corpo-terra sob ataque”. Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com estágio doutoral na Universidad Complutense de Madrid, a pesquisadora participará de debate ao lado da liderança indígena e professora Lucila da Costa Moreira Nawa e do missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Roberto Antônio Liebgott. A mediação será conduzida pelo promotor de Justiça Carlos Rubens de Freitas Oliveira Filho. Encerrando a programação, no dia 11 de junho será realizada a Escuta Pública dos Usuários, mediada pela promotora de Justiça Maria Coeli Pessoa de Lima.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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